Comboio de Espectros

 

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Sinopse:

Ele está de volta! Depois de Mausoléu e Treze, o Anfitrião retorna do túmulo para horrorizar os leitores com suas histórias macabras, de medo e de sangue. Espíritos vingativos, mortos-vivos, criaturas infernais, divindades antigas e constructos enlouquecem os protagonistas privando-os da sanidade e da própria vida. Um grupo de idosos se reúne no Vaticano para relembrar uma vivência sobrenatural, um necromante invoca das profundezas um grande trunfo, um guerreiro hoplita desbrava terras estranhas para encontrar uma erva rara, um caçador de recompensas no Velho Oeste americano enfrenta o seu maior inimigo, um misterioso colecionador de relíquias invade uma narrativa literária, um detetive descobre que sua mente e seu corpo estão sofrendo alterações irreparáveis, um estudante da Universidade de Miskatonic visita o Brasil em busca das “Sonhadoras”, um filme fantasmagórico revela um final fantástico, um alquimista cria uma monstruosidade mecânica, um homem é atormentado pela sua fera interior e assaltantes lidam com terríveis pesadelos em uma estrada que conduz para o inferno. Abra as páginas deste novo tomo de Duda Falcão e venha fazer você também parte do Comboio de Espectros.

Confira na íntegra o Prefácio escrito por Braulio Tavares

A pulp fiction de gênero teve alguns surtos no Brasil; o mais intenso destes está ocorrendo agora.

Na imprensa brasileira, a expressão pulp fiction é usada de vez em quando como sinônimo de “literatura policial”, porque quem a usa assim ouviu o termo pela primeira vez em conexão com o filme homônimo de Quentin Tarantino.

A verdade é que essa literatura popular explorou numerosos gêneros, tais como a ficção científica, a fantasia, o horror, o policial, etc.

Era uma literatura praticada nos EUA principalmente entre as décadas de 1920 e 1940, em revistas baratas que formaram gerações sucessivas de leitores e de escritores.

Surtos anteriores de pulp fiction no Brasil se concentraram na ficção policial (o que talvez explique em parte o uso limitado do termo por uma porção da imprensa). Eram revistas de contos policiais, como X-9, Meia Noite, Suspense, ou misturando relatos de crimes reais com contos, como Detetive.

O surto atual não se dá mais no formato dos pulp magazines, cujo perfil editorial talvez esteja hoje muito datado. Acontece em antologias, em websites, em romances e em coletâneas de contos que têm outra feição gráfica, mas praticam a receita infalível do pulp: histórias com imagens vívidas, imaginação predominando sobre a lógica, pouco apreço ao realismo psicológico, com algo de histórias em quadrinhos, algo dos seriados de cinema, mais ação do que reflexão, estilo narrativo muitas vezes tosco, mas sempre vigoroso.

Isso tem se dado no Brasil na última década em vários gêneros, mas principalmente no terror.

Um gênero é um leque composto de subgêneros, todos interligados por algumas premissas básicas, e cada um deles se afastando dos demais na busca de uma área temática exclusivamente sua. Gêneros literários, afinal, não passam da cristalização de alguns efeitos que, gerados pela primeira vez numa obra de forte impacto, se transformam numa espécie de modelo, receita, fórmula, conjunto de regras.

Edgar Allan Poe publicou em 1841 Os Assassinatos da Rua Morgue e criou praticamente sozinho não apenas o gênero do conto policial, como também o subgênero do “crime de quarto fechado”. H. G. Wells publicou em 1895 A Máquina do Tempo e inventou, dentro do scientific romance britânico, o subgênero das viagens no tempo, que a ficção científica do século 20 exploraria em obras incontáveis.

O conto de horror norte-americano deve muito a dois dos seus principais praticantes na primeira metade do século 20: H. P. Lovecraft (1890–1937) e Robert E. Howard (1906–1936). Foram dois indivíduos de vida curta e atormentada, que escreveram compulsivamente para os pulp magazines com relativo sucesso entre os aficionados, mas sem o reconhecimento do grande público. Este veio como uma ironia póstuma: seus livros hoje são adaptados para o cinema, vendem milhões de exemplares em edições populares, são analisados pela academia e são relançados como edições de luxo para colecionadores.

Howard se celebrizou principalmente por suas histórias sobrenaturais envolvendo vaqueiros ou caçadores das planícies e das montanhas do Oeste, e pelas aventuras de Conan, o Bárbaro, que ajudaram a fazer decolar o gênero da sword and sorcery (“espada e feitiçaria”).

A criação principal de Lovecraft foi o Ciclo de Cthulhu, uma série de histórias sobre a presença, na Terra, de criaturas alienígenas que um dia a dominaram e depois foram contidas por forças superiores a elas; essas criaturas, os Antigos, formam um panteão de deuses malignos que usam os seres humanos ora como gado, ora como vítimas gratuitas de sua crueldade.

Lovecraft e Howard se tornaram pontos de referência para sucessivas gerações de autores, que usam seus universos como modelo e inspiração.

Os contos de Duda Falcão, de que este Comboio de Espectros é um exemplo vívido, mantêm traços marcantes desse tipo de ficção, e talvez o mais interessante desses traços seja a noção de um gênero que não se constitui em obras isoladas, textos independentes, mas na interligação que há entre eles.

O mundo ficcional de Lovecraft era um universo onde os Deuses Malignos eram as figuras recorrentes, sempre ao fundo, sempre na sombra, sempre fora do palco, e os personagens humanos do proscênio eram a parte descartável e efêmera das histórias.

Lovecraft criou o modelo, para os escritores de horror das gerações seguintes, dessa cosmogonia de pesadelo, na qual surgem alguns personagens recorrentes que retornam, “costurando” com suas aventuras esse embate entre os Deuses invulneráveis e os humanos que não passam de “extras” anônimos nessa imensa ópera cósmica de mutações malignas, vampirismo interespécies e hecatombes repentinas.

Seja nas experiências profanas com plantas que são autênticas “flores do mal”, seja na absorção de um sangue capaz de dissolver sua humanidade, os protagonistas de Duda Falcão são agentes incansáveis e, ao mesmo tempo, receptores passivos e indefesos de uma maldição que os transcende e os ignora.

Comboio de Espectros nos lembra de que no sul do país está florescendo um surto de literatura de horror que vai dos quadrinhos ao cinema, do conto ao romance, dando uma feição própria à tradição da pulp fiction. E que recupera, gerações depois, o filão explorado por Rubens Francisco Lucchetti na literatura, por José Mojica Marins no cinema, por Jayme Cortez, Flavio Colin, Eugênio Colonnese e tantos outros nos quadrinhos.

A narrativa de horror brasileira talvez seja uma entidade poderosa que está apenas esperando o melhor momento para se manifestar… e devorar todo o resto à sua volta. Enquanto isso, ela sonha; e seus sonhos inquietam o sono dos mortais.

Ilustrações: Fred Macêdo

Colorização: Robson Albuquerque

Projeto Gráfico: Roberta Scheffer

Revisão: Tiago Cattani

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